quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Antoni Gaudí



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Gaudí, em 1978.
Eu começo hoje uma série de posts sobre arquitetos que considero inspiradores, artistas, monstros que fizeram ou ainda fazem algo inovador no mundinho divertido dessa arte funcional. Pensei um bocado antes de definir qual seria meu primeiro e optei por falar de Gaudí. Principalmente porque dos meus ídolos ele é um dos mais antigos, produziu obras fantásticas, de colocações e revestimentos que até hoje em dia - com todo esse direito a "loucura" que os arquitetos podem ter em determinados locais / situações, ainda não tem ninguém que sequer se atreva a fazer coisa parecida!

Introdução
Antoni Placid Gaudí i Cornet, nasceu em Reus no dia 25 de Junho de 1852, de origens humildes, era filho de um latoeiro que iria viver com ele no fim da vida acompanhado de uma sobrinha, nunca tendo casado. Mostrou desde cedo interesse pela arquitetura, tendo ido estudar em 1869 em Barcelona, onde passou grande parte de sua vida, o então centro político e intelectual da Catalunha, sendo também a cidade a mais moderna da Espanha. Só acabou o curso oito anos mais tarde, tendo os estudos sido interrompidos pelo serviço militar e outras atividades intermitentes. A obra de Gaudí faz parte do que hoje em dia é chamado de Modernismo Catalão, uma variante local do movimento chamado de Art Noveau - movimento de design e arquitetura que teve destaque na chamada Belle Époque, iniciou-se nas últimas décadas do século XIX e tem relação direta com a 2º Revolução Industrial que acontecia na Europa, proporcionando a melhor exploração de materiais como vidro e ferro. As primeiras obras de Gaudí possuem claras influências do estilo gótico na arquitetura e da arquitetura tradicional catalã. É possível enxergar em Gaudí a influência direta das idéias do arquiteto francês Eugène Viollet-le-Duc, arquiteto que prezava idéias de revivalismo (movimento que acontece várias vezes na história da arte e visa trazer de volta preceitos de um tipo de arte produzido anteriormente na sociedade) e trouxe para o seu país a volta da produção de arquitetura considerada gótica. Viollet-le-Duc foi um dos precursores da idéia de preservação do patrimônio histórico e é considerado um dos primeiros teóricos da arquitetura moderna. Arquiteto cujo estilo distinto se caracteriza pela liberdade de forma, cor e texturas voluptuosas e na unidade orgânica, Gaudí trabalhou quase sempre em Barcelona ou nos seus arredores. Grande parte da sua carreira foi ocupada com a construção do Templo Expiatório da Sagrada Família.

Red House (William Morris) / Abadia de Saint-Denis / Esboço de Viollet-le-Duc



Arquitetura Gótica - Resumo
A arquitetura gótica é um estilo que surgiu depois da arquitetura românica e precedeu a arquitetura renascentista. Surgiu na França, no período medieval, era inicialmente chamada de Opus Francigenum, que significa "Obra Francesa" e somente depois expalhou-se pelo resto da europa. É essencialmente a arquitetura das grandes catedrais. Diferente da sua predecessora, a arquitetura românica, que possuía arcos semi-circulares cujo peso da coberta era diretamente descarregado nas paredes que precisavam ser grossas e fechadas, a arquitetura gótica tinha como principais características sua "leveza". Sua estrutura era formada por arcos ogivais que criavam abóbadas bem divididas, que jogavam seu peso diretamente em pilares sustentados por contrafortes e arcobotantes. Essa estrutura bem dividida tornava possível a utilização de grandes aberturas nas paredes que não precisavam mais ser tão espessas, preenchidas com vitrais coloridos e rosáceas na sua fachada principal. A função desses vitrais, juntamente com a grande altura da edificação era criar um ambiente de iluminação filtrada, leve, mística, onde os frequentadores podiam sentir a infinitude e o poder do divino.

Catedral Notre-Dame de Paris/ Catedral Notre-Dame de Laon / Catedral Notre-Dame de Chartes /
Catedral de Metz / Catedral de Amiens / Abadia Beverley

Comparação de Plantas: Gótica - Românica - Renascentista

Arco Parabólico Catenário
Uma parábola é definida como uma "seção cônica gerada pela interseção de uma superfície cônica por um plano paralelo a uma linha geradora do cone". Algo que provavelmente você não se lembra da escola, é que geralmente a representação no plano cartesiano do resultado de equações de geometria analítica tem a forma de parábola. A palavra caternária define "uma família de curvas planas semelhantes às que seriam geradas por uma corda suspensa pelas suas extremidades e sujeitas à ação da gravidade". Esse é o preceito do arco parabólico catenário de Gaudí. De maneira nada convencional, ele criava modelos tridimensionais em escala para moldar suas parábolas, usando correntes ele submetia esses modelos ao peso nas extremidades e quando atingissem a estabilidade, ele copiava aquela forma e reproduzia ao contrário para criar seus arcos em seus projetos. O arco parabólico catenário era a base para suas famosas Cúpulas Catenárias, uma das marcas registradas do arquiteto.

Plano cartesiano com parábolas catenárias / Fachada do Templo da Sagrada Família


Park Güell
O projeto do parque de Gaudí foi criado para ser um grande conjunto dentro de uma área de grande beleza natural com moradias de alto padrão e o melhor que a tecnologia da época pudesse oferecer em termos de conforto. Todo financiado por seu mecenas, o cliente Eusebi Güell, que dá seu nome ao parque. A obra construída nem de longe possui toda a grandiosidade previamente projetada, o que definitivamente não faz dela algo pequeno. O terreno onde está situado o parque é de formação devoniano (formação rochosa da era paleozóica) de extratos de ardósia e calcário, encontra-se num local de altitude elevada as margens da cidade, é um local de refúgio, com clima muito mais tranquilo que a capital catalã. Gaudí teve como inspiração as formas naturais, no intúito de criar uma total integração entre seu parque e o terreno onde estava inserido, é possível encontrar colunas formadas de pedras em formas e tamanhos variáveis, que sugestionam troncos de árvores, estalactites. Não esistem ângulos retos: é tudo distorcido, inclinadas como palmeiras. Quando Gaudí encarregou-se do projeto a zona estava desflorestada – como indicava o seu nome de Montanha Pelada –, pelo qual mandou plantar nova vegetação, escolhendo espécies mediterrâneas autóctones, as que melhor adaptavam-se ao terreno: pinho, alfarroba, azinheira, eucalipto, palmeira, cipreste, figueira, amendoeira, ameixeira, mimosa, magnólia, agave, hera, carrasco, retama, esteva, romeiro, tomilho, lavanda, sálvia, etc. Gaudí se aproveitou da grande irregularidade topográfica do terreno para criar desde um "caminho de elevação espiritual" que levava até uma capela nunca construída, a vários viadutos para percorrer o parque, a praça oval, cujo projeto inicial consistia num teatro grego, suspendido por colunas trabalhadas com figuras animais e circundada pelo banco ondulante.

Entrada do Park Güell
Banco Ondulante / Viaduto do Museu / Viaduto do Parque
Vista dos Pavilhões
Trecandis
o Trecandis é uma técnica tradicional catalã de produção de mosaicos artísticos. Antoni Gaudí foi o primeiro a utilizar essa técnica como revestimento de fachada em seus projetos. A técnica consiste em mosaicos criados a partir de pedaços cerâmicos, sendo os tradicionalmente usados copos e telhas e unidos com argamassa. Atualmente é conhecido por ser uma forte característica da arquitetura modernista, porém, já era usada na Cataluña e por Gaudí. O maior exemplo do uso do mosaico trecandis na obra de Gaudí é o Park Güell, que possui elementos arquitetônicos todos revestidos com esse tipo de arte, principalmente, o banco ondulante.

Lagarto da Fonte / Banco Ondulante (ambos no Park Güell)
Vista do Park Güell

Fases
É possível identificar quatro fases dentro do conjunto de produção arquitetônica de Gaudí. O estilo de Gaudí atravessou diversas fases. Quando saiu da escola provincial de arquitetura de Barcelona, em 1878, começou a projectar de acordo com um estilo Vitoriano bastante florido, que já era evidente nos seus projectos escolares, mas desenvolveu rapidamente uma maneira de compor por meio de justaposições de massas geométricas, até aí nunca usadas, cujas superfícies eram animadas com pedra ou tijolo modelado, painéis cerâmicos de cores vivas, e estruturas de metal utilizando motivos florais ou repteis. O efeito geral, embora os detalhes não o sejam, é Mourisco - ou Mudéjar, como a mistura especial da arte muçulmana com a cristã é conhecida em Espanha. Os exemplos de seu estilo Mudéjar são a Casa Vicens, de 1878-80, e El Capricho construída entre 1883 e 1885, assim como a Propriedade e o Palácio de Güell, de finais dos anos 80 do século XIX. Todas as obras, excepto o El Capricho estão localizadas em Barcelona.

Casa Vicens (1878 - 1880)
El Capricho (1883 - 1885)

A segunda fase de Gaudí refere-se a "Arte Nova" e surgiu no período que o arquiteto tinha como mecenas o o rico e bem sucedido industrial Eusebe Güell, de Barcelona. Sua casa era aberta aos artistas e foi lá que Gaudí absorveu muita coisa que pôde expressar através de sua arquitetura. Mais tarde, Gaudí experimentou as possibilidades dinâmicas de vários estilos arquitectónicos. A terceira fase identificável na obra do catalão é a fase "gótica" sob influência das obras de Viollet-le-Duc, no entanto, a inspiração gótica em Gaudí dá espaço para idéias inovadoras, como a utilização do arco parabólico em seu método projetual. O gótico é encontrado no Palácio Episcopal de Astorga, obra realizada entre 1887 e 1893, e na Casa de los Botines em Leão, construída entre 1892 e 1894; o barroco na Casa Calvet em Barcelona (1898-1904).

Palácio Episcopal de Astorga (1887 - 1897) / fachada e abobada catenária
Casa de los Botines (1898 - 1904) - desenho da fachada e fachada construída

A última e principal fase de Gaudí é aquela em que ele buscava de maneira exaustiva um estilo próprio, as obras que melhor apresentam esse sentimento são as casas Batlló e Milá.

Casa Batlló (1875 - 1877)
Casa Milá (1905 - 1907)
Renaixensa Catalã
Arquitecto admirado, mesmo que considerado um pouco excêntrico, Gaudí foi um participante importante na Renaixensa catalã, um movimento artístico revivalista das artes e dos ofícios que se combinou com um movimento político de feições nacionalistas que se baseava num fervoroso anti-castelhanismo. Ambos os movimentos procuraram restabelecer um tipo de vida na Catalunha que tinha sido suprimido pelo governo centralista de Madrid, ao longo do século XVIII e XIX. O símbolo religioso da Renaixensa em Barcelona era a igreja da Sagrada Família, um projecto que ocupou Gaudí durante toda a sua carreira.

Templo da Sagrada Família


Em seus últimos anos de vida, dedicou todo seu tempo a religião católica e a sua obra nunca terminada e mais conhecida: O Templo da Sagrada Família. O templo fica em Barcelona e seu projeto teve início em 1982, gaudí assumiu o projeto em 1983 quando tinha 31 anos de idade, e dedicou-lhe 40 anos de sua vida, sendo os últimos 12 anos de dedicação exclusiva a essa que foi considerada por ele e é considerada até hoje pelos críticos de arquitetura como sua grande Obra Prima. Sua construção foi interrompida em 1936 devido a Guerra Civil Espanhola e não se estima sua conclusão até 2026, centenário da morte de seu criador. O projeto foi previsto para ser construído no estilo neogótico mas foi inteiramente reformulado por Gaudí. O templo foi projetado para ter três grandes fachadas, sendo elas: Fachada da Navitidade (quase terminada com Gaudí ainda em vida), Fachada da Paixão (iniciada em 1952) e a Fachada da Glória, ainda incompleta. Não é de se estranhar que o Templo ainda esteja incompleto, sua construção foi sendo adaptada a medida que o projeto avançava e é de uma riqueza de detalhes exímia, desde sua estrutura aos seus vitrais: tudo foi pensado nos mínimos detalhes e é claro que reproduzir toda essa criação divina sem a devida supervisão de seu artista é um trabalho árduo. Apesar de incompleta, o Templo já é de importante significado histórico. Tendo no decorrer de sua construção passado por diversas mudanças, diversas histórias marcantes, seria impossível não "fugir a temática" se escrever tudo que deve ser falado sobre esse presente arquitetônico do gênio que foi Gaudí.

Templo da Sagrada Família (1882 - até hoje)
Planta / Corte / Maquete
Fachada da Natividade / Fachada da Paixão / Fachada da Glória
Esculturas: Árvore da Vida / A Morte dos Santos Inocentes / Esperança
Morte e Beatificação
Devido a sua dedicação a igreja católica e a sua obra no fim da vida, existe um movimento em prol da beatificação de Gaudí em curso desde 1992. No Vaticano está em andamento esse processo de beatificação do arquiteto depois do encerramento da fase diocesana em 2003, todos os documentos com a sua biografia passaram por Roma para serem submetidos à congregação para as causas dos santos. Para o Arcebispo de Barcelona e Presidente da Comissão do Padroado da Sagrada Família, Cardeal Martínez Sistach, "Gaudí era um grande cristão. Tinha uma espiritualidade franciscana, de amor e contemplação das belezas da natureza, imagens da beleza do Criador". Gaudí morreu aos 72 anos, vítima de atropelamento. Ignorado durante os anos 20 e 30 do século XX, quando o estilo internacional era o estilo arquitectónico dominante, foi redescoberto nos anos 60, sendo reverenciado tanto por profissionais como pelo público em geral, devido à sua imaginação transbordante. A avaliação do trabalho arquitectónico de Gaudí é notável pela sua escala de formas, texturas, e policromia, e pela maneira livre e expressiva como estes elementos da sua arte se conjugam. A geometria complexa de um edifício de Gaudí coincide com a sua estrutura arquitectónica em que o todo, incluindo a sua fachada, dá à aparência de ser um objecto natural conformando-se completamente com as leis da natureza. Tal sentido da unidade total informou também a vida de Gaudí, já que a sua vida pessoal e profissional eram indistinguíveis.

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