Naquele cantinho da rua, sempre tinha um pequenino rodamoinho. Sempre sempre sempre sempre que se passava ali dava pra ver as folhinhas rodando, encostadas no muro branco encardido, descascando tinta velha do estacionamento de caminhões. Naquele cantinho da rua, sempre dava para ouvir o assobio, que se não fosse tão constante, tão imutável, poderia ser uma canção. Era uma vez naquela rua, um silêncio de matar, e que quase congelou o peito quando passei, era uma vez naquela rua, uma pedra que não rangia, um cimento que não esfarelava, a terra que não voava porque o vento não soprava. Quando isso aconteceu, foi então que eu enxerguei, que aquele rodamoinho precisava estar ali, inquieto, barulhento, desordeiro. Chacoalhando toda a vida, transformando numa incógnita, cada momento sutil. Naquele cantinho da rua, sempre tinha um pequenino rodamoinho. As vezes para esquerda, ele levava as cascas de tinta em direção a grade, e lá elas permaneciam, flutuando como que suspensas por uma força constante invisível, encostadas na tela de arame. As vezes para direita, adentrava pela fresta debaixo do portão de ferro toda a sujeira da rua.. Mas bonito, bonito mesmo, era quando ele subia, transformando em balão, a sacola plástica vazia, dançando, rodopiando no alto como uma bailarina, molhada, refletindo a luz do sol que entrava em um ângulo agudo, batendo do muro pra parede, da parede pro portão, do portão para a sacola, passeando no vento, desenhando então um arco íris. Quando isso acontecia, por um momento tão pequeno, dava pra ter toda certeza do mundo, que aquele rodamoinho, não era só um rodamoinho, encostado no muro branco encardido do estacionamento de caminhões. Quando isso acontecia, por toda uma eternidade dava pra ter uma certeza tão pequena, que era o pequeno portal, para o pequeno mundo mágico de pequenas fadas, que tal?
domingo, 13 de novembro de 2011
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