domingo, 24 de abril de 2011

Por cima dos escombros.



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Não tem coisa mais frustrante do que construir seus castelos por cima de um terreno lamacento e sem fundações que suportem. Eu pensava assim antes de perceber que afundar não era o principal problema. Quando a gente começa a construir e vê que não está dando certo, a gente pára, muda, tenta melhorar. mas pior que isso é quando construímos por cima de escombros. É fácil dizer que é culpa de alguém. É muito fácil mesmo você fazer uma bobagem e se colocar no lugar de fera ferida. Mas também é fácil sub julgar alguém, não dizem que uma mentira contada 100 vezes vira uma verdade? Pois é.

Castelo por Frederich St-Arnaud



Tentei construir amizades sobre escombros de ilusão, tentei construir um amor unilateral por cima da areia movediça de uma amizade que tinha tudo pra dar certo. Magoei e fui magoada por coisas que não cabiam a mim, coisas as quais eu não tinha direito de alegar poder. Pessoas também. Mas fui magoada também por coisas que eu tinha sim o direito de reclamar. E ninguém parou pra enxergar que naquele aspecto eu estava certa. Talvez porquê estivesse mais errada do que certa, isso é fato. Depois de tantos ensaios de amizades que falharam, depois de tanto treinar e perder, eu joguei fora algo que era real, e porque? Porquê depois de tantos ensaios de mudança, tentativas de melhora, eu continuei a mesma pessoa.

Não ruim, não vou me atacar a esse ponto, mas indiferente, em muitos aspectos, aos outros. Muitas vezes me parecia que eles não sofriam, que nem enxergavam quando era eu que sofria, muitas vezes me sentia pintada de preto com uma nuvenzinha de chuva em cima da cabeça num muito colorido e feliz, pintada de preto num canto e invisível, aquilo me deprimia mais ainda. Mas eu não era invisível, em algum lugar doentio da minha cabeça talvez eu quisesse acreditar que não me viam, talvez seja egocêntrica demais, talvez goste de mim demais e nunca tenha reparado que não sendo o que eu gostaria de ser, não merecendo a atenção que eu gostaria de receber, eu exigia isso mais e mais de algumas das pouquíssimas pessoas que me davam essa atenção em doses homeopáticas. Porquê o mundo não gira ao redor do meu umbigo.

Será que é tarde demais pra pedir desculpas? Essa pergunta fica martelando na minha cabeça direto, não sai por mais que eu tente me distrair. Eu conheci algumas pessoas novas e interessantes, eu estou começando de novo, mas como quem pisa em ovos. Espero que aquelas minhas novas amigas não se sintam mal ao ler isso porque não sabem o tamanho do valor que eu lhes dou. Mas é tudo tão perigoso... Eu quero receber e devolver a mesma intensidade de amizade, eu quero que tudo seja proporcional e sem espaço para mal entendidos absurdos e sentimentos de inferioridade posteriores. Eu quero, de verdade, ser uma boa amiga que as pessoas sintam orgulho de serem minhas amigas. Mas faz tempo que eu quero isso né? O fato é que talvez eu precisasse de um tratamento de choque pra fazer isso funcionar, e que choque! Talvez eu precisasse mesmo enxergar que não tem uma nuvenzinha me acompanhando em todos os lugares que eu vou, que na verdade é como se fosse uma névoa em cima da minha cabeça me escondendo o mundo real e todas as possibilidades. Minha vida não é uma história de um romance, não é um filme de ação e aventura, minha vida também não é uma história de terror. Minha vida é o que eu faço dela e eu tenho feito dela um drama tão triste nos últimos tempos. Não é isso que eu quero, não é isso que eu vou ter.

Sendo assim, se houver alguma chance de perdão em algum lugar, espero que o destino a guarde para mim num lugar bem seguro onde nenhum dragão, por mais poderosa e mortífera que seja sua magia, possa tirar de mim. Porquê não vou agora, eu preciso de ar, eu preciso de mim, e sei que sentir falta da Gil que eles conheceram é uma atitude masoquista da parte deles. Eu vou continuar aqui, vou fazer novos amigos, amigos que possam me considerar uma amiga de verdade e não apenas um peso. Vou aprender a devolver as coisas boas em dobro, e fazer valer o carinho que tiverem por mim. E então, eu volto, pra pedir perdão, não de joelhos, porquê isso seria uma atitude que a antiga Gil talvez fizesse, soltando frases de caráter capazes de provocar pena na mais fria das criaturas, mas de cabeça erguida, com um sorriso no rosto, uma saudade autêntica e uma vontade, dessa vez acompanhada de total capacidade de fazer tudo diferente. Sejam felizes meus amigos, e me perdoem apenas se eu merecer.

Meu castelo existia, era lindo e colorido, mas estava escondido atrás de uma capa invisível. Passei o trator por cima dele enquanto tentava exaustivamente construir um novo castelo por cima de antigos escombros, agora que posso vê-lo, quebrado e sem brilho, vou remover tudo que sobrou dos escombros, aterrar o terreno, construir um novo castelo mais bonito ainda, adubar o solo e plantar o jardim mais lindo que já existiu, pra só assim, meus queridos, convidá-los a voltar, de balão de ar quente, dirigível elefante ou navio com velas de borboletas, pra uma vida que de tão diferente irá parecer-lhes nova. Ainda que demore tanto para construir um novo castelo.

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