terça-feira, 15 de março de 2011

Origens do Rock and Roll #1



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Alguém se lembra de um post que eu fiz sobre livros que peguei na faculdade? Pois bem, esse nasceu de um deles: Rock and Roll, uma história social, de Paul Friedlander. Quem tiver condição de ler esse livro, eu super recomendo! Alô Alô, alunos da Caótica (de Recife, PE), assim que eu terminar, podem catar lá na seção de música da biblioteca, garanto que não vão se arrepender.
Nesse post eu vou reproduzir partes do segundo capítulo do livro, que fala da origem histórica do rock atual, referentes a influência do R&B, junção de estilos musicais afro-americanos dos anos 40 e 50, postarei players com as músicas citadas e músicos relacionados aos estilos citados, colocarei as páginas do livro onde poderão encontrar o tal textinho, e se fizer qualquer comentário, colocarei em itálico e cor de rosa, assim.

Intro.
Em suas origens, o Rock and Roll era essencialmente uma música afro-americana. Os ritmos sincronizados, a voz rouca e sentimental e as vocalizações de chamado-e-resposta (cantar sem articular notas nem pronunciar palavras) carácterísticas dos trabalhadores negros eram parte da herança da música africana e tornaram-se os tijolos com os quais o rock and roll foi construído. Começamos com o blues rural do início do século XX e descreveremos a natureza e o desenvolvimento do blues urbano, do gospel e do jump band jazz. A fusão desses quatro estilos de música afro-americana viria a se tornar a essência da música negra do início dos anos 50, chamada de rhythm and blues (o famoso R&B) - a maior fonte do rock and roll. O folk e a música country, tradicionais estilos brancos - e eles mesmos, uma síntese de formas negras e brancas - , também contribuíram com ingredientes importantes para o início do rock and roll. Em meados dos anos 50, o rockabilly, uma fusão sulista e branca da música country, do blues, do gospel e do rhythm and blues, proporcionol a catálise musical e emocional para que muitos músicos brancos ultrapassassem os limites da tradicional música country e entrassem na era do rock and roll. (pág 31)

Blues Rural e Urbano.
No início e em meados do século XX, o blues existiu de inúmeras formas diferentes. O estilo popular de blues, com vocalistas como Ma Rainey e Bessie Smith, era tocado em teatros, pavilhões e casas de shows principalmente ao leste do rio Mississipi. Os artistas vendiam milhares de discos, alcançando um significativo sucesso comercial mesmo na comunidade branca. Homens negros desempregados, carregando seus velhos violões, cruzavam o Sul durante os piores dias da Depressão, cantando sobre a vida difícil e dolorosa que levavam. Esse blues rural continha elementos estilísticos muito específicos: a maior parte das músicas tinha doze compassos de apenas três acordes (uma progressão harmônica I-IV-V) e repetia o primeiro verso da estrofe duas vezes antes de oferecer um terceiro verso diferente (estrutura de letra: A-A-B).

'Ma' Rainey e Bessie Smith
Ma Rainey - Black Bottom

Bessie Smith - Wild About That Thing





As letras do blues falavam de adversidades, conflitos e ocasionalmente, celebração. Acompanhando o canto, a maior parte dos intérpretes tocava um violão de cordas de aço; ocasionalmente eles usavam o gargalo de uma garrafa derretida (ou uma lâmina) para mimetizar o uivo emocional deste estilo de vocal. Algumas vezes, um ou mais músicos os acompanhavam com harmônicas (gaitas ok, não me decepcionem!), com um segundo violão ou com duas baquetas de percussão chamadas de "bones". Muitos dos artistas proeminentes do blues rural vieram da região do Delta do Mississipi. Os estilos de Son House e Robert Johnson (da região do Delta), do texano Blind Lemon Jefferson e de Huddie Ledbetter (ou Leadbelly, natural da Louisiana) foram especialmente influentes.

Son House / Robert Johnson / Leadbelly

Robert Johnson - Crossroad

Blind Lemon Jefferson - See That My Grave Is Kept Clean

Leadbelly - Where Did You Sleep Last Night



As apresentações de blues rural sulista nas varandas, nos bares de beira de estrada, ou na praça das cidades perderam importância na década que se seguiu à Segunda Guerra Mundial - até serem substituídas pelo blues urbano do Norte e Oeste. O centro passou a ser os bares enfumaçados da região sul de Chicago, assim como outras áreas urbanas e palcos teatrais. Uma maciça migração negra durante a Depressão e os anos da Segunda Guerra Mundial criaram um grande número de comunidades afro-americanas nos centros urbanos do Norte do país ao final da guerra em 1945. As novidades e a alienação da existência urbana, a ausência do lar rural e da família - e de seu apoio emocional e material - ajudaram a criar o cenário no qual o blues urbano floresceu. (pág 32)

O falecido Muddy Waters, um apanhador de algodão e cantor de blues rural do Mississipi, formou uma importante banda de blues em Chicago no final dos anos 40. Bateria, baixo, uma guitarra rítmica e um piano formavam a seção rítmica básica, ou o "núcleo" da banda. Uma guitarra base e harmônica eram acrescentadas como instrumentos solo. Essa formação básica tornou-se modelo para as bandas de rock moderno e, mais tarde, para os roqueiros clássicos que adaptaram este formato de conjunto (ou grupo). O estilo de cantar blues urbano manteve a forte carga emocional das letras e as notas sustentadas ("blues notes") do seu predecessor sulista. No entanto, o tema das letras foi expandido, para incluir a paisagem urbana e uma dose de positividade e orgulho, e prosseguindo com temas como a Depressão e a catarse rural. A disposição dos versos transcendia freqüentemente o formato rural com três linhas A-A-B (a gravação de Muddy Waters de Hoochie Coochie Man é um exemplo).

Muddy Waters - Hoochie Coochie Man


Outros bluesman urbanos alcançaram projeção. Em Chicago, o baixista Willie Dixon compôes músicas que foram gravadas por Howlin'Wolf (Spoonfull) e pelo excelente gaitista Little Walter (My Babe). Elmore James ficou conhecido por seu estilo gargalo de garrafa de tocar guitarra e John Lee Hooker criou e gravou canções  sobre a "vida difícil". Em outros lugares, guitarristas como Riley "B.B" King (Memphis), Aaron "T-Bone" Walker (Los Angeles) e Lightnin' Hopkins (Texas) eram exemplos de blues regional. O blues urbano, com sua formação básica expandida, com o uso maior de guitarra e o abandono de temas depressivos, representou o maior passo em direção ao nascimento do rock and roll. Greações subsequentes de rockers, incluindo guitarristas pioneiros como Eric Clapton, Jimi Hendrix e Keith Richards, voltariam ao blues urbano como fonte de inspiração. (pág 33 pt.1)

Música Negra Gospel.
Soul Strirres
Um estilo vocal emocionado e de complexidade harmônica caracterizou uma segunda, e importante, raiz negra do rock and roll, a música religiosa chamada gospel. Este estilo musical tem suas origens na "igreja invisível" do final do período de escravidão, e era um formato que incluia palmas, chamado-e-resposta, complexidade rítmica, batidas persistentes, improvisação melódica e acompanhamento com percussão. Todas essas raízes podem ser encontradas no rhtthm and blues, muitas, por fim, do próprio rock and roll. No início do século XX, compositores como Thomas Dorsey criaram uma versão contemporânea do gospel, que pode ser facilmente reconhecida hoje em dia. (pág 33 pt.2)

Grupos como Soul Strirres e Swan Silvertones tornaram-se populares, enfatizando o fraseado interpretativo, a expressividade emocional e a excelência vocal. Os cantores podiam subir em uma escala até chegar a um falsete e, a seguir, emitir um resmungo baixo. Era comum uma grande improvisaçãorítmica sincopada na melodia. Os diálogos de chamado-e-resposta - originários dos cantos africanos - eram executados por um cantor principal e pela congregação que respondia. O gospel também inspirou gestos corporais entusiasmados e livres, tanto para os apresentadores quanto para a congregação. Cada um desses elementos tornou-se um componente importante para o R&B e, mais tarde, para o rock and roll. (pág 34 pt.1)

Jump Band Jazz.
O jump band jazz, sintetizado por Louis Jordan e os Tympani Five (ou Six), foi o terceiro estilo que contribuiu significativamente para o rhythm and blues, e assim, para o rock and roll. Ele emergiu no rastro do fim da era das grandes bandas no final da Segunda Guerra Mundial; um estilo animado com um conjunto formado por cinco ou seis instrumentos e um saxofone proeminente. O tamanho escondia seu poder; essa pequena banda de jazz fazia realmente "dançar". A batida geralmente suingada e os solos de saxofone foram dois elementos que os jovens trouxeram para do Jazz  para o R&B. (pág 34 pt.2)

Louis Jordan and the Tympani Five

Rhythm and Blues, o R&B.
Ray Charles
Ray Charles - I Got A Woman



No final dos anos 40, visionários da música negra transformaram os elementos do blues, do gospel e do jump  band jazz no estilo conhecido como rhythm and blues. Essa fusão tornou-se, mais tarde, a base para a primeira era do rock, o rock and roll clássico. A síntese musical do R&B consistia na formação básica das bandas de blues, complementada por um solista de sax-tenor do jazz. Como no jump band jazz, o importante era o swing. A influência do gospel, que enfatizava a base rítmica 2/4 (ou backbeat), marcadas principalmente pela bateria, criava um movimento corporal que estimulava os ouvintes. O virtuosismo vocal e a criatividade no palco, ambas heranças do gospel, foram importantes componetes no R&B - representados por cantores com estilo tenor como o lúgubre Clyde McPhatter e o crooner Sonny Till. Emoção na voz e a sustentação das notas foram herdadas do blues. O solo instrumental, feito principalmente pelo sax-tenor, combinava a fluidez improvisada do jazz com as longas repetições do blues. (pág 34 pt.3)


A visão do mundo do R&B era mais otimista do que o estilo predecessor, o blues da época da Depressão, embora anda tivesse raízes profundas na liberdade e nas experiências da vida real. Alguns dos artistas do R&B clássico eram beberrões (como Stick McGee, Drinkin' Wine Spo-Dee-o-Dee, 1948), festeiros (como Roy Brown, Rockin' at Midnight, 1948), ou, celebravam as mulheres como Ray Charles em seu clássico de 1954, I Got a Woman. A vida podia continuar sendo uma das frentes de batalha do blues, mas o amor e os relacionamentos sexuais eram os temas mais comuns - demais para a maior parte dos envergonhados brancos e muitos dos negros. O poder musical do R&B, a ênfase rítmica no backbeat ("a batida") e a autenticidade das letras atraíam um novo público de jovens ouvintes negros do pós guerra. (pág 35)


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O interessante desse livro, é que ele desmembra cada pedacinho do estilo. Não explica apenas as músicas considerando termos técnicos - que aliás, são super bem explicadinhos para aqueles que são (não tão) leigos. Dentro do conceito e desenvolvimento de cada um dos três estilos citados que formam o R&B, que em seguida terá suas influências sobre o rock and roll, é mostrada a idéia inserida no contexto histórico e social da época em que cresceu. Legal também é que com as definições da técnica, dos instrumentos (e a forma que eles são tocados) do forma de cantar e de se expressar, é possível ver seus elementos menos ou mais presentes em todos os sub estilos musicais relacionados ao Rock que ouvimos hoje em dia. Na minha opinião, o conceito necessário para o nascimento do rock and roll começou a ser gerado quase que paralelamente ao blues urbano, baseado no que diz o próprio livro, as temáticas de vida sofrida e rural em contrapartida aos temas mais alegres, enfatizando essa idéia com o jump band jazz e as coreografias e vocais frenéticos do estilo gospel. Até esse ponto, não fazia a menor idéia que o estilo gospel poderia fazer parte de algo que criou toda a base para algo que pra tanta gente tem fama de ser do diabo, como dizia Raul Seixas. É estigante, né? essa mistura toda ter originado algo que tanta gente escuta (e ama pra caralho). Bem, próximo post eu prometo falar mais e copiar menos (risos) e vai ser sobre a parcela branca que influencia no rock and roll, o Country e o Folk, a quem interessar possa, fiquem ligados na terça feira que vem (;

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